Produção e precificação
Perda técnica na gráfica: como medir e colocar no preço
Perda técnica é o material que a máquina consome e o cliente não recebe. Neste artigo: quais são as três parcelas, como medir cada máquina sem chute, a conta na ordem certa e o que muda no preço de venda.
Resposta curta: a perda técnica se mede por máquina, com três números: folhas de acerto, folhas de lavagem e perda percentual da tiragem. A tiragem é a quantidade pedida dividida por (1 menos a perda percentual), arredondada para cima. O consumo total é a tiragem mais o acerto e a lavagem. O custo que vai para o preço é o consumo inteiro vezes o custo do material dividido pela quantidade que o cliente recebe.
O erro clássico é tratar a perda como um percentual de desconto e somar por cima da tiragem. Os dois lados estão errados: a perda não é proporcional em cima, é proporcional embaixo (1.000 ÷ 0,95, e não 1.000 × 1,05), e o acerto não é proporcional, porque a máquina come as mesmas 12 folhas se o pedido é de 100 ou de 100.000.
As três parcelas que formam a perda técnica
| Parcela | O que é na prática | Comportamento na conta |
|---|---|---|
| Acerto (folhas de preparação) | Folhas que a máquina come entre um job e outro: folha de registro, primeira impressão, prova de cor. | Entra uma vez por job, e não por unidade. Pedir 100 ou 10.000 custa as mesmas folhas. |
| Lavagem (troca de job) | Folhas gastas limpando rolo, tinta e resíduo de cor quando você troca de cor, de gramatura ou de material. | Também entra uma vez por job. Em impressão digital e em soloprint, ela entra como consumo de tinta e solvente, e não como folha. |
| Perda percentual da tiragem | Quebras, boqueiras, manchas, papel fora de esquadro, erro de operador no meio da tiragem. | É a única das três que dilui com a quantidade. Precisa ser medida por máquina, não chutada por toda a fábrica. |
Essa separação é o que permite medir. Acerto e lavagem você conta no chão de fábrica: são folhas físicas, contadas ou pesadas. A perda percentual você obtém comparando o consumo real com a entrega, em um intervalo de jobs, não em um job. Misturar as três em um número só, chamado de "perda da gráfica", esconde exatamente o dado que você precisa para corrigir.
A conta na ordem certa
tiragem = arredondar para cima ( quantidade pedida ÷ (1 − perda% ÷ 100) )
consumo = tiragem + folhas de acerto + folhas de lavagem
custo por unidade entregue = ( consumo × custo do material ) ÷ quantidade entregue
A ordem importa em dois pontos. Primeiro, a perda percentual incide sobre a tiragem, então a divisão vem antes da soma dos fixos. Segundo, folha é contável: arredondar para baixo faria a conta "chegar" no número pedido consumindo material que não existe.
| Versão | Conta | Folhas | O que acontece |
|---|---|---|---|
| Errado: 1.000 + 5% de perda | 1.000 × 1,05 | 1.050 | Perde para a conta: com 5% de perda você precisa de 5,3% a mais de tiragem, não de 5%. |
| Certo: 1.000 ÷ 0,95 | 1.000 ÷ (1 − 5/100) | 1.053 | A perda é percentual do que você imprime, não do que o cliente leva. E folha é inteira: arredonda para cima. |
São três folhas em mil, o que parece pouco. Em um mês com dez jobs de 5.000 exemplares, a conta errada dá 5.250 folhas por job e a conta certa dá 5.264: 140 folhas de papel a mais que ninguém orçou. O divisor é o número que vale conferir no chão.
Exemplo completo: 1.000 cartões em offset 4 cores
Máquina com 12 folhas de acerto, 3 folhas de lavagem e 3% de perda na tiragem. Papel a R$ 0,85 a folha. O mesmo cálculo serve para qualquer unidade: troque "cartão" por chapa, por metro de vinco ou por exemplar, e mantenha a mesma ordem.
| Passo | Resultado | Como chegou lá |
|---|---|---|
| Quantidade pedida pelo cliente | 1.000 cartões | O que entra no orçamento |
| Perda percentual cadastrada na máquina | 3% | Medida no chão de fábrica, não de tabela de terceiros |
| Tiragem a imprimir (1.000 ÷ 0,97) | 1.031 folhas | 1.000 ÷ 0,97 = 1.030,93, arredondado para cima porque folha não se divide |
| Folhas de acerto | 12 | Somadas uma vez só, no fim |
| Folhas de lavagem | 3 | Somadas uma vez só, no fim |
| Consumo total da máquina | 1.046 folhas | 1.031 + 12 + 3 |
| Folhas que viram perda | 46 | 1.046 consumidas menos 1.000 entregues |
| Custo da perda | R$ 39,10 | 46 folhas × R$ 0,85 por folha |
| Custo do material por cartão entregue | R$ 0,8891 | 1.046 × R$ 0,85 ÷ 1.000 |
| Perda efetiva do job | 4,40% | 46 ÷ 1.046, acima dos 3% cadastrados porque o acerto entra na conta |
O material bruto sairia por R$ 850,00 (1.000 × R$ 0,85). Com perda técnica, sai por R$ 889,10: R$ 39,10 a mais por job, ou 4,60% de material que não vira produto. Se o preço foi calculado com R$ 0,85 de material, cada job de mil cartões sai R$ 39,10 mais caro antes do GGF e da margem. Com dez jobs iguais no mês, são R$ 391,00 que não aparecem em nenhum extrato.
Repare também que a perda efetiva ficou em 4,40%, e não nos 3% cadastrados. Isso não é erro: é o acerto e a lavagem entrando na conta. Quem cadastra 3% e depois espera ver 3% no relatório vai achar que o cadastro está errado quando o número real for maior.
O job curto paga a perda duas vezes
Com o mesmo cadastro (12 de acerto, 3 de lavagem, 3% de perda) e o mesmo papel, a perda efetiva muda conforme a quantidade. O percentual da tiragem dilui; os fixos, não.
| Pedido | Tiragem | Consumo | Folhas de perda | Custo por unidade | Perda efetiva |
|---|---|---|---|---|---|
| 200 cartões | 207 | 222 | 22 | R$ 0,9435 | 9,91% |
| 1.000 cartões | 1.031 | 1.046 | 46 | R$ 0,8891 | 4,40% |
| 10.000 cartões | 10.310 | 10.325 | 325 | R$ 0,8776 | 3,15% |
O material de um cartão em 200 unidades custa R$ 0,9435, contra R$ 0,8776 em 10.000: 7% mais caro no job curto. É por isso que os preços de tiragem curta costumam ficar abaixo do custo. Se você não inclui a perda técnica no preço, o desconto comercial do cliente come exatamente a margem que a máquina já estava tirando.
Para um job de 200 unidades, a saída prática não é inflar margem: é agrupar jobs da mesma máquina no mesmo dia, porque o acerto é por job. Com a mesma conta, dois jobs de 200 somados custam 15 folhas de acerto em vez de 30.
Como medir sem chute
- Meça uma máquina por vez, com material conhecido. Roda um job de tamanho conhecido com uma gramatura que você domina e conte o material que entrou e o que saiu. O que não volta para o cliente é perda.
- Separe acerto e lavagem do resto. Conte as folhas de preparação e as de troca de job separadamente. Se você misturar tudo em um percentual, não consegue corrigir nem comparar máquinas.
- Feche em janela, não em job. Meça a perda percentual em dez ou vinte jobs seguidos, na mesma máquina e na mesma gramatura. Uma folha de papel fora de esquadro é ruído; o percentual de um job só é sorteio.
- Cadastre e reavalie por mudança de material. Papel mais leve suja menos e rasga menos; tinta de alto cobertura limpa mais. O parâmetro de 4 cores não vale para a máquina de 1 cor com a mesma tiragem.
- Confira isso contra a conta de material. Se o consumo mensal do estoque não bate com o consumo previsto somando os jobs, ou a perda real é outra coisa, ou alguém está usando material fora do orçamento. A perda técnica registrada é o detector mais barato disso.
Quatro erros comuns
Um número único para toda a fábrica
Erro: Usar 5% em toda parte, da offset 4 cores ao laser de recorte, como se as duas máquinas tivessem o mesmo desempenho.
Correção: Cadastre o parâmetro por equipamento. Uma offset com tinta de alto cobertura diverge de um laser de recorte na mesma gramatura; o mesmo número nas duas transfere o erro da máquina que perde mais para a que perde menos.
Somar o percentual em vez de dividir
Erro: Multiplicar a tiragem por (1 + perda) e chamar o resultado de tiragem ajustada.
Correção: Dividir por (1 menos a perda). Em 1.000 folhas, 5% de perda pede 1.053, e não 1.050: as 3 folhas de diferença em 1.000 virarão diferença de margem em todo pedido grande.
Esquecer o acerto no job curto
Erro: Calcular a perda percentual de um pedido de 200 peças e esquecer que as 15 folhas de acerto e lavagem entram do mesmo jeito.
Correção: Some os fixos sempre. No exemplo acima, os 3% viram 9,91% de perda efetiva em 200 peças, porque 15 folhas é muito em tiragem curta.
Perder o número depois do orçamento aprovado
Erro: Deixar a perda técnica como cálculo na planilha e recalcular à mão quando o papel muda.
Correção: Congele o resultado do cálculo na linha do orçamento. O cliente aprovou um número; esse número não pode virar outro porque o cadastro da máquina foi editado depois.
Como o Cromari trata a perda técnica
A perda técnica é parâmetro de máquina, então o cadastro fica no módulo de produção, que é onde a folha de acerto é medida. Cada equipamento tem nome, código, folhas de acerto, folhas de lavagem, perda percentual, situação ativa e observações. Equipamento desativado continua no histórico e apenas deixa de aparecer na listagem de equipamentos ativos, sem apagar o que já foi orçado.
- No orçamento: quem escolhe o equipamento é o servidor. Ele resolve o cadastro, calcula a perda e grava o retrato na linha do item: quantas folhas foram para perda e quanto custou. Valor enviado pelo cliente não entra na conta, e item com referência inválida é recusado inteiro, sem gravar metade.
- Na ordem de produção: a mesma perda vai para o item da OS, já calculada. O chão de fábrica sabe quanto material foi para perda antes de conferir a tiragem entregue, sem recalcular nada.
- No cálculo de preço: a unidade passa a custar o material consumido, e não o material da quantidade entregue. A resposta traz o detalhamento da conta: quantidade líquida, tiragem, consumo total, folhas de perda, percentual cadastrado, percentual efetivo, custo da perda e custo efetivo por unidade.
- Trava do cadastro: a perda percentual tem de estar entre 0 e 100 (menor que 100, porque é divisor), e as folhas de acerto e lavagem são inteiras e não negativas. Código de equipamento é único por empresa.
O ponto que mais importa na hora de revisar um número: o cálculo é feito uma vez, na criação do orçamento, e o resultado fica gravado na linha. Se alguém corrigir a perda percentual de uma máquina no mês que vem, o orçamento que o cliente já aprovou continua com o número antigo. Para cálculo de preço, veja também como calcular o custo da hora-máquina, que entra na mesma linha de custo antes do GGF.
Checklist para colocar no orçamento
- Liste as máquinas da fábrica e meça cada uma por material e gramatura.
- Cadastre acerto, lavagem e perda percentual por equipamento.
- Escolha o equipamento no item do orçamento e confira o consumo e a perda gerados.
- Compare o custo efetivo por unidade com o preço de venda antes de enviar.
- Acompanhe a perda efetiva reportada e ajuste o parâmetro quando ela divergir do cadastro.
- Agrupe jobs curtos da mesma máquina para diluir o acerto.
- Revise os parâmetros a cada trimestre e sempre que trocar o material.
Se a sua gráfica ainda monta esse cálculo em planilha, o cálculo de GGF e a montagem do orçamento herdam o mesmo problema: número que cada pessoa recalcula do jeito dela.
Perguntas que sempre aparecem
O que é perda técnica em uma gráfica?
É todo material que a máquina consome e que o cliente não recebe. Tem duas origens: o consumo fixo do job, que são as folhas de acerto e de lavagem, e a perda percentual da tiragem, que são quebras, manchas e papel fora de esquadro. No exemplo deste artigo, uma offset 4 cores com 12 folhas de acerto, 3 de lavagem e 3% de perda consome 1.046 folhas para entregar 1.000 cartões: 46 folhas de perda, que a R$ 0,85 por folha dão R$ 39,10 por job.
Como calcular a perda técnica por máquina?
Divida a quantidade pedida por (1 menos a perda percentual), arredonde a tiragem para cima porque folha é inteira, e depois some as folhas de acerto e de lavagem uma vez só. A perda em folhas é o consumo total menos a quantidade entregue, e o custo da perda é essa quantidade de folhas multiplicada pelo custo do material. A perda percentual que vale é a do consumo total, não a da tiragem, porque o acerto também é perda.
Por que 5% de perda não significa 5% a mais de tiragem?
Porque o percentual incide sobre o que a máquina imprime, não sobre o que o cliente leva. Para entregar 1.000 boas com 5% de perda você precisa imprimir 1.000 ÷ 0,95, que dá 1.052,63 e arredonda para 1.053. Somar 5% (1.050) deixa a conta curta, e a diferença aparece como margem perdida em pedidos grandes, onde 3 folhas viram dinheiro.
A perda técnica é a mesma para toda tiragem?
Não. O percentual da tiragem dilui com a quantidade, mas o acerto e a lavagem são fixos por job e não dilat. Com 12 folhas de acerto e 3 de lavagem a 3% de perda, a perda efetiva é 9,91% em 200 peças, 4,40% em 1.000 e 3,15% em 10.000. Por isso o job pequeno é o que mais sofre com esse erro de precificação.
Onde cadastrar a perda técnica no Cromari?
No módulo de produção, em um cadastro de perda técnica por equipamento, com nome, código, folhas de acerto, folhas de lavagem, perda percentual e notas. Cada equipamento tem os três parâmetros próprios. Ao escolher o equipamento em um item de orçamento, o servidor resolve o cadastro, calcula e grava o retrato do cálculo na linha: quantas folhas foram para perda e quanto isso custou. A ordem de produção carrega esse mesmo retrato, então o chão de fábrica sabe quanto material foi para perda antes de conferir a tiragem entregue.
Perda técnica entra no GGF ou no custo do produto?
Entra no custo da matéria prima da unidade entregue, antes do GGF. O GGF rateia custo fixo de fábrica (aluguel, energia, supervisão) por base de produção; a perda técnica é material que você já comprou e que não vira produto, então ela aumenta o custo unitário diretamente. A ordem importa: primeiro a perda entra no custo do material, depois o GGF é rateado sobre o custo, e só então a margem é aplicada. Inverter essa ordem subestima o preço de venda.
Coloque a perda técnica no preço de verdade
No Cromari, a perda técnica é cadastrada por equipamento, entra no custo de cada item do orçamento, viaja para a ordem de produção e aparece no cálculo de preço com o detalhamento da conta. Você para de descobrir a margem depois que a gráfica já rodou.
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